O Sebo

“Todos os livros bons têm uma coisa em comum, eles são mais verdadeiros do que se tivessem realmente acontecido”. Ouvi isso da boca do próprio Hemingway, não realmente de sua boca, mas de sua alma. Eu passava pela rua em uma daquelas manhãs de verão em que o sol vai surgindo sutilmente e, embora você tente julgá-lo como ideal para o momento, o calor já está insuportável mas, por algum motivo eu já estava estancado em frente àquela vitrine, admirando os incontáveis títulos literários que estavam expostos à vista. Sem me preocupar em reagir, seguia olhando todos aqueles livros que se espremiam em busca de um pouco mais de espaço, um pouco mais de ar, mas nunca tentando aparecer mais que os demais. Não, nem todos. Um pouco mais adiante da entrada já se ouvia uma voz esganada lançando piadas entre inúmeros comentários típicos dos que se dizem eticamente corretos... Jô Soares, e só ele era quem falava, como de costume.

Os sons do trânsito lá de fora já havia se distanciado bastante e o calor já não incomodava mais, Jô seguia seus discursos e piadas, falava do homem que matara Getúlio Vargas, suas aventuras com Xangô e sobre mulheres gordas e esganadas. Pode isso!? Mas é certo que de alguma maneira você se apega a ele, mas o que te faz despertar é sua platéia, nunca tem nada muito interessante à sua volta. Me lembro de ver vagamente o João Ubaldo Ribeiro, Machado de Assis e Dan Brown. Mas algo tomou-me a atenção de repente, e não só a minha, um grito estancara lá do fundo – Genial! Me apressei para descobrir logo que maravilhosa ideia seria aquela. Os fundos eram um pouco mais escuro e úmido, mas isso não parecia incomodar a inspiração dos que conversavam em uma mesa redonda e faziam anotações em grandes folhas amareladas pelo tempo, John Grishan e Agatha Christie bolavam um elaborado suspense criminal com um grande mistério e um belo combate nos tribunais.

Foi nesse instante em que Ernest me abordou e despejou sua celebre frase, ele mantinha nas mão uma bebida forte só de cheirar e um cigarro velho pela metade que me parecia apagado, mas de alguma maneira ele o tragava prazerosamente - Eles estão nessa há anos meu caro – continuou ele – aviso para que não te iludas, daqui a pouco Agatha vai matar um personagem que provavelmente John teria como fundamental para todo o decorrer do processo. Eu nem ainda havia absorvido o que ele me disse quando me dei conta que já voltava para o centro do sebo mas agora com o braço de Hemingway sob meus ombros. Ele continuara a falar, mas eu estava por demais ocupado com todas as conversas que brotavam das estantes. Os assuntos eram diversos mas eu me recordo claramente de uma encenação que William fazia para inúmeros orientais, ele estava ajoelhado e conversava em um inglês muito do complicado com um crânio em suas mãos.

Hemingway aparentemente havia chegado ao seu destino, ou ao que ele gostaria que eu chegasse também e, enquanto puxava uma cadeira, deu-se ao trabalho de apresentar-me os integrantes daquela roda. Dickens, H. James, Fitzgerald, Austen, Bronte, Carrol, Tolstoy, Elliot, Wilde, Conrad, Huxley, Orwell, entre diversos outros que ele não teve paciência de me apresentar e nem eu pude reconhecer, ousadia de perguntar eu não haveria de ter também. A conversa era daquelas em se fala de tudo quanto é coisa e ninguém possa se aprofundar no seu ponto de vista, volta e meia todos falavam do mesmo assunto, mas diversa vezes se aglomeravam em duplas e trios sobre temas bem diferentes e que magicamente iriam se juntar em um só mais adiante. Porém, as críticas aos diretores de cinema eram recorrentes nesses diálogos e eles não pareciam muito alegres.

Reparei que mais adiante, sentado no chão empoeirado um senhor dispensava toda a sua atenção em uma pequena menina que discursava apaixonadamente para seu único ouvinte. Me aproximei lentamente, sem pestanejar a garota deu um breve sorriso a assentir a minha chegada mesmo que aparentemente atrasado. À frente do senhor haviam quatro ou cinco cadernetas em que ele fazia anotações distintas em cada uma delas. Não sei bem quanto tempo assisti à apresentação, mas só comecei a me situar quando ela terminou. Ela falava de Aristóteles, Platão e Sócrates e era como se enfeitiçasse nossos olhos que não desgrudavam dela. Se identificou como Sophia e estava toda empolgada com a minha presença, eram tantas a perguntas que ela me fazia que eu me perdi e, se bem me recordo, não respondi nenhuma.

Da mesma forma que ela começou o interrogatório, deixou-me a sós, dizendo que precisava novamente apartar a discussão entre Tolkien e Lewis. Eu a segui por instinto – Eles estão sempre brigando – dizia ela – estão velhos de mais e o John não admite a aparição do Papai Noel nas histórias de Lewis. Isso tudo me distraiu e então percebi que já havia passado tempo demais ali, fui me retirando aos poucos sem querer desfazer todo aquele lindo cenário que acontecia no sebo. Foi então que, quando já estava bem próximo da porta de saída, o velho das cadernetas encostou-se ao meu lado – Não tenhas medo de partir, vá e conte ao mundo que ainda há vida nestes cantos, conte a eles que há mais movimento dentro de suas cabeças do que tudo o que se possa criar nesse mundo. – Vocês são como uma história viva – respondi sem fitá-lo. – Não, nós somos a vida e contamos uma história.

Entrar num BLOG, ler o texto e não comentá-lo
é como ir na casa de uma pessoa e sair sem se despedir.

2 comentários:

jader_cm disse...

Deviam ser hilários os barracos do Oscar Wilde! Hahahaha! Adorei o conto, amigo! E, se não me engano, já conversamos uma vez sobre este seu passeio! Dentro do ônibus indo para a Lapa. Tá, a conversa foi bem menos fantasiosa, mas tão divertida quanto o conto!

Abraços!!!

MaKquinho disse...

Bem lembrado Jader. Só lamento que você impossibilitou que eu comemorasse um ano sem algum comentário no blog kkkkkkkkkkkkkkk. Grande abraço e passe sempre que puder.